Noites de Porto Alegre

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Hoje, 26 de março de 2018, Porto Alegre comemora 246 anos de fundação.
Em fins de 1967 e início de 1968, quando saí do Exército, fui morar e trabalhar em Porto Alegre.
Era um tempo em que a capital gaúcha à noite era um burburinho e ainda possuía seus cinemas, bares, cafés, restaurantes, clubes, boates e demais atrações noturnas, como, por exemplo, o saudoso Teatro de Arena, no alto das escadarias da Borges de Medeiros.
Lembro de bares e cafés como o Ryan, na Rua dos Andradas e daquele clube noturno com música ao vivo ali na Andrade Neves, atrás do Cinema Vitória, assim como outros bares, restaurantes e choperias em vários pontos, como era o caso do saudoso Bob’s Bar na Cristóvão Colombo e do restaurante Dona Maria em frente à Praça XV.
Na Rua Marechal Floriano, na esquina com a Av. Salgado Filho, havia um bar e lancheria cuja especialidade eram os pratos feitos pelo mestre Dom Ramón, que se assemelhavam muito aos do Sabó em Rivera; os seus chivitos com bife ou filé, ovos, tomate, batatinha frita e alface eram deliciosos, acompanhados de um chope de barril com serpentina.
Eu trabalhava no Bairro Navegantes e morava no Hotel De Conto, na Avenida Farrapos, quase na esquina com a Rua Sertório, de onde mais tarde mudei para pensão do Jairo, que ficava perto do centro, na antiga Rua da Conceição.
Todos os dias, após o expediente, quando não vinha para o centro de carona com o meu saudoso chefe e amigo Benito Cademartori, eu tomava um ônibus na Av. Farrapos que me deixava na esquina da Rua da Conceição, a meia quadra da pensão onde eu morava.
Diariamente, entre às 18 e 19 horas, depois de um banho, preparava o meu mate e ia a pé até à pracinha Dom Feliciano, onde num edifício em frente eu tinha uma namorada.
Ali na Pracinha Dom Feliciano ficávamos tomando mate até as 9 ou 10 horas da noite.
Nos finais de semana, com a namorada ou sozinho, jantava no centro e ia a algum dos vários cinemas. E depois ficávamos pelo centro, em alguma choperia, até altas horas da madrugada.
Um dos meus restaurantes preferidos era o Dona Maria, onde havia uma milanesa à francesa e um carreteiro muito parecidos com os do nosso antigo Restaurante Pedrinho de Livramento.
As noites de Porto Alegre no final da década de 60 eram tranquilas, apesar dos vários focos de prostituição que iam desde a Voluntários até as calçadas sob o viaduto da Av. Borges de Medeiros.
Mas os malandros e as mulheres da noite eram gente pacífica e não havia criminalidade.
Nas imediações da Rua Dr. Flores havia uma boate chamada Shalimar, e lá embaixo, no final da Marechal Floriano, nas proximidades da pracinha da esquina da Av. Borges com a Demétrio Ribeiro, havia outra boate que era o reduto do pessoal da polícia, onde sempre encontrava alguém daqui de Livramento. Ali mandavam eles. A área era deles, e as mulheres também.
Uma coisa que não se via em Porto Alegre, pelo menos no centro, era moradores de rua.
Naquela época as pessoas, por mais humildes que fossem, tinham o seu trabalho ou meio de sobrevivência e não havia pedintes, nem crianças nem adultos, e poder-se-ia dizer que se vivia num clima de relativa paz e tranquilidade.
Depois que vim de Porto Alegre, passei uns 30 anos sem voltar lá.
A última vez foi para autografar meu livro Crônicas da Vida Boêmia de Santana e Rivera, em 2008, na Feira da Praça da Alfândega, e pela proximidade do local do evento, pernoitei no Hotel Praça da Matriz.
No sábado à noite, na véspera da minha sessão de autógrafo, que aconteceria no domingo à tarde, desci a pé até o centro para ver se encontrava algum restaurante. Mas todos os restaurantes ou bares do centro de Porto Alegre, àquela hora, estavam fechados.
Disse-me um taxista: “Se o senhor quiser comer alguma coisa a esta hora, terá que procurar outros lugares mais afastados do centro ou ir até a Estação Rodoviária.”
Porto Alegre à noite no centro, em 2008, havia se transformado numa cidade deserta.
Pelo seu aniversário, nesta data, parabéns à valorosa Cidade de Porto Alegre, ao seu povo e ao Rio Grande do Sul.

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