A carta de Pero Vaz de Caminha

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Confesso que me enfaram os noticiários sobre corrupção que todos os dias aparecem estampados nos mais diversos meios de comunicação. Penso que é preciso me livrar destas notícias da atualidade. Tenho que procurar outras leituras para entreter o meu tempo disponível com coisas amenas. Aleatoriamente, apanho em minha biblioteca e abro um livro de História do Brasil.

Quem sabe as coisas de nosso passado sejam melhores que as atuais, penso eu. Abro nas primeiras páginas e o prefácio diz que aquele calhamaço descreve a primeira visão européia desta nova terra até os acontecimentos mais destacados do último século. No primeiro capítulo traz a transcrição integral da carta que Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei Dom Manuel no dia 1º de maio de 1500, localizando-se no que chamou de Porto Seguro da ilha de Vera Cruz.

A carta descreve com os mínimos detalhes o relato da viagem desde a partida em nove de março do porto de Belém, em Portugal, a chegada aqui em 21 de abril e a visão da nova terra e de seus habitantes, do que aqui fizeram e de que ainda não deu para perceber se havia ouro e prata por aqui. Ao finalizar a carta, parece que o escriba resolveu plantar a semente que alimentaria o comportamento dos futuros habitantes desta terra. Vejam o que pede Pero Vaz de Caminha ao rei:

“E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro — o que d’Ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza”.

Assim, já é possível ver que na ata do descobrimento e do estabelecimento do presumível direito de posse e de colonização de Portugal sobre o novo continente já surgia também a marca indelével do nepotismo e das relações cruzadas entre o particular e o Estado.

Observa-se que o descobrimento de nossa terra já dispôs deste viço inconfundível que sempre buscou medrar os íntimos relacionamentos escusos daqueles que se aproximam das burras do Estado para o enriquecimento pessoal ou de seus apaniguados.

Passaram-se mais de 500 anos e as modalidades de achaques foram se aperfeiçoando, a fim de permitir que alguns se apropriassem dos recursos públicos despudoradamente, em detrimento da honesta maioria que trabalha com afinco e recolhe os seus tributos.

É fácil concluir que a rapinagem em todos os quadrantes deste país na atualidade, inclusive nas terras indígenas, é fato comum e tem pedigree histórico, pois durante o período colonial não havia limites para a apropriação indevida de tudo que estivesse ao alcance dos colonizadores e outros aventureiros.

Só me resta voltar a ler O Pequeno Príncipe. É mais complacente.

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