Fernanda, Fernanda…

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“A desgraça do Brasil é que a esquerda virou direita. Não estou assustada com a direita, mas sim com a esquerda”. (Fernanda Montenegro, no Estadão,19/08/2017)

A atriz Fernanda Montenegro é uma figura luminosa dos palcos e das telas nacionais. Seu talento dramático, voz inconfundível e seriedade profissional se sobrepõem ao arcaísmo das posições a que adere. Seu alinhamento é conhecido. Sempre votou em Lula, com quem diz se haver decepcionado desde o abraço que o uniu a Paulo Maluf durante a campanha eleitoral de Haddad à prefeitura paulistana (entrevista à Veja, em abril deste ano).

Ninguém deixa de gostar e de respeitar Fernanda Montenegro por suas posições políticas. Ela está acima disso. Mas a frase em epígrafe precisa ser exibida pelo que é: espécie de chave de leitura dos meandros através dos quais, para os intelectuais orgânicos da esquerda, a realidade incômoda sai qual fumaça pela chaminé dos fatos e volta a ser nuvem, lá no alto, no plano da utopia. Frei Betto é mestre nisso. Para Fernanda, se a esquerda, depois de três décadas de estragos causados ao país e à política continental, seja no governo, seja na oposição, está no epicentro, também, do tsunami moral que varre a nação, então se virou do avesso.

Ora, tudo que nessa esquerda havia de ativo e atuante exerceu poder e influência, na oposição e no governo, durante três décadas. Ditou regras sob a lona preta dos acampamentos do MST e sob os rutilantes lustres dos gabinetes; no mais modesto sindicato e nos “campeões nacionais” como JBS e Odebrecht; na pastoral social da favela e nas manifestações da CNBB; na salinha de aula da vila e nas enfatuadas cátedras do mundo acadêmico; no jornalzinho de bairro e em presunçosas redações de retumbantes veículos. Mas, para Fernanda, se deu tudo errado, então a esquerda “virou direita”. Não importa se lá vão os pés pelas mãos porque o mundo gira, a fila anda e a nuvem da utopia precisa estar sempre lá em cima.

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