O Egípcio …

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Uma bela maneira de gostar de história é ler autores que não abordam os fatos com rigorismo mas antes lhes dão um sabor de romance ou aventura, como é o caso de alguns clássicos da mitologia grega e latina e da História do Brasil narrada por historiadores como Laurentino Gomes e Eduardo Bueno.

Quando eu tinha dezoito ou dezenove anos, lembro que foi nas vésperas de ir para o quartel, li o romance O Egípcio, do escritor fiinlandes Mika Waltari, que narrava a vida e as aventuras de Sinuhe, filho adotivo de um sacerdote-médico egípcio, o qual, tendo herdado de seu pai a vocação pela medicina, não soube se manter dentro dos padrões de conduta e disciplina e se tornou um aventureiro.

Como filho de um sacerdote médico, Sinuhe seguiu a mesma carreira do pai. E assim foi iniciado na escola onde se ministravam os ensinamentos e mistérios da arte e da ciência sacerdotal.

O local onde esses conhecimentos eram ensinados, no andar de cima do palácio real do faraó, se chamava “A Casa da Vida”, uma espécie de universidade onde se aprendiam a ciência e a arte da medicina.

A Casa da Vida, como já disse, se situava num pavimento superior do palácio real, enquanto a Casa da Morte, onde se embalsamavam os cadáveres, funcionava nos subterrâneos do palácio.

Depois de ter se tornado um sacerdote médico, e após a morte de seu pai, Sinuhe se deixou atrair amorosamente pela sacerdotisa de Set, o deus-gato dos egípcios, cuja casa passou a freqüentar.

Esta mulher , que representava o vício da luxúria e da dissipação, largou Sinuhe literalmente de tanga, depois de lhe tirar todo o dinheiro e todos os bens.

Arruinado, depois de um estágio de castigo entre os necrófilos da Casa da Morte, por seu desregramento moral e por não aceitar o culto a deuses representados por animais, Sinuhe foi condenado ao degredo e saiu a peregrinar pelo deserto.

Durante a sua peregrinação, ao passar pelo Vale dos Reis, onde estavam as pirâmides, foi assaltado e capturado por ladrões.

Mas como nada possuía para ser roubado, foi acolhido fraternalmente pelos ladrões e convidado a participar do seu sindicato, pois os ladrões naquele tempo já eram organizados.

Recusando o convite , Sinueh foi liberado pelos ladrões e estes lhe deram duas moedas de ouro.

Com uma dessas moedas Sinueh, pelo caminho, comprou e libertou um escravo e deu-lhe a outra moeda de presente.

E sozinho continuou a sua peregrinação.

Depois de vaguear por vários dias, quase morto de fome, de sede e de cansaço, deparou-se com uma grande muralha que se erguia à sua frente e que surgira de repente, em pleno deserto.

Sinuhe golpeou num dos portões e um guarda veio lhe dizer que ali não podia entrar nenhum forasteiro, porque a filha do rei estava muito doente.

Sinuhe lhe disse que era médico, e o rei mandou franquear-lhe o ingresso.

Ao entrar Sinueh deparou-se com algo tão impressionante que a princípio quase não acreditou que fosse real.

Diante de seus olhos apresentava-se um mundo fabuloso, com belas paisagens naturais.

Era um oásis circunscrito no deserto por uma admirável obra de engenharia com sua natureza, lagos, flora, fauna, palácios e magníficos jardins.

Depois de ser recebido pelo rei e sua corte, e de curar a jovem princesa, Sinuhe, a convite do rei, passou a viver ali.

Durante um banquete que se seguiu em sua homenagem, o rei ofereceu-lhe a mão de sua filha; mas nesse instante, ao contemplar uma roda de moinho que alguns escravos amarrados a ela faziam girar, perguntou ao rei porque mantinha aqueles escravos amarrados, numa atitude tão cruel que contrastava com a beleza do lugar.

O rei, para convencê-lo de que era justo e misericordioso, disse que aqueles escravos ali estavam amarrados desde crianças, e que não conheciam a beleza do lugar porque, para evitar que se angustiassem, lhes tinha mandado furar os olhos …

Desiludido e revoltado com tamanha crueldade, Sinuhe despediu-se e continuou a peregrinar.

E conheceu outros lugares, suas culturas e seus costumes.

Num anacronismo propositado, o autor coloca Sinueh em contato com povos de épocas e lugares diferentes.

Faz com que visite na Grécia, a ilha de Creta, observe os hábitos sociais do palácio do Rei Minos e conviva com os hititas, assírios e caldeus, aprendendo-lhes as artes e as ciências.

Passados muitos anos, Sinuhe retorna ao Egito, materialmente pobre, porém rico em conhecimentos e experiência de vida.

Ao chegar, encontra no lugar de sua antiga casa paterna um suntuoso palácio, cujo proprietário era ninguém menos do que o escravo que havia libertado, o qual, durante a sua ausência, investira aquela moeda de ouro na compra e estocagem de cevada, pois soubera que a cevada iria escassear devido a uma longa estiagem em conseqüência do refluxo das águas do rio Nilo.

Ao parabenizar o escravo por seu espírito empreendedor, este lhe diz:

— Obrigado, meu senhor. Mas isto lhe pertence. Toda esta riqueza e patrimônio eu construí para o senhor.

Sinueh aceitou aqueles bens de presente, mas voltando a freqüentar a casa da sacerdotisa, voltou a perder até o último centavo …

E mais duas vezes tornou a peregrinar , recompondo-lhe o escravo a fortuna, que foi novamente dilapidada por Sinuhe.

Derradeiramente empobrecido, Sinueh é convidado pelo faraó Amenófis IV, que fora seu amigo de infância e agora instituíra no Egito o culto monoteísta, para ser o médico real e seu médico particular.

Agora no exercício de suas funções como médico do palácio real, Sinuhe vem a curar de lepra uma mulher do povo, e em cujo semblante envelhecido reconhece aquela que por três vezes o arruinara, a sacerdotiza de Seth.

Esta é em resumo a história de Sinuhe o Egípcio, cuja leitura ainda hoje recomendo aos amigos e amigas.

Apesar de ser uma ficção, o romance de M. Waltari é baseado em fatos e personagens da história e há nele todo um manancial de aprendizado sobre a cultura e a ciência dos povos antigos.

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