Salvo melhor juízo …

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Do mesmo modo que existe entre os seres humanos uma tendência atávica de endeusar os vivos que se destacam em alguma coisa, nas artes ou nas ciências; neste mundo de ilusões também prevalece o mau costume de aceitar sem discutir e concordar com tudo o que disseram, principalmente os grandes ídolos da humanidade, pelo fato de terem morrido.
As pessoas, depois que morrem, não se tornam mais ou menos boas, mais ou menos sábias, não perdem suas virtudes, qualidades ou defeitos reconhecidos em vida, ou seja, depois que morrem, não pioram nem melhoram.
A Doutrina Espírita afirma num de seus livros básicos, em que se formulam perguntas e respostas, que os espíritos, pelo fato de serem espíritos, não são melhores, nem mais sábios ou mais inteligentes do que os vivos, embora através de suas reencarnações, de uma para outra existência, evoluam em relação a si mesmos.
Portanto, a não ser pela admiração e respeito que temos por determinadas figuras públicas vivas ou mortas, não há fundamento para que suas afirmações, mensagens ou citações se tornem absolutamente sagradas ou indiscutíveis a ponto de não poderem ser colocadas em dúvida nem admitirem contestação, pelo fato de serem citadas ou de autoria de um importante defunto — seja ele Sócrates, Aristóteles, Apolônio, Santo Agostinho, Galileu, Shakespeare, Nietzsche, Voltaire, Fernando Pessoa, Einstein, Frank Sinatra, Thomas Edison, Cora Coralina, Jorge Amado, Vinícius de Moraes, Clarice Linspector, Elvis Presley, Cazuza, Airton Sena ou Renato Russo.
Para citar dois representantes vivos da arte e da filosofia, recentemente, num programa de auditório pela televisão, o Altas Horas, Caetano Veloso e Leandro Karnal foram unânimes em afirmar que as recentes exposições coreográficas em museus são apenas obras de arte, com o que aparentemente todas as pessoas do auditório concordaram e aplaudiram. Mas será que todos realmente concordam com isso ?
Não se trata de desacreditar absolutamente quem quer que seja, mas de rever essa propensão unânime ou generalizada de endeusar pessoas e de aceitar inquestionavelmente o que dizem ou deixam por escrito, pois oxalá sua intenção tenha sido precisamente esta, a de colocarem em dúvida ou em discussão aquilo que afirmaram.

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